Sobre o dia que colheremos estrelas do chão

Sobre o dia que colheremos estrelas do chão

    Era o ano de 2006, parece que foi ontem, mas já fazem quase 10 anos. Nessa época eu atuava como educador em uma das brinquedotecas da ACM, da região de Sampa. Você não faz ideia de como era divertido aquilo, e de como causava dor nas costas. Pensa que é fácil fazer cavalinho para mais de ''cento e duzentas'' crianças?

    Eram de todos os tipos que passavam por ali, enquanto os pais faziam suas atividades. Havia o grupo das bailarinas mirins, dos jogadores mirins, dos tímidos mirins, dos curiosos mirins, dos bonzinhos mirins e, claro, dos mais atentados mirins, que faziam o Taz-Mania ser café com leite lá dentro.

    Houve um dia em que uma das atividades que propus foi a arte do origami. Sentamos todos em roda no chão. Vários papéis coloridos. Era o dia de aprender a fazer pequenas estrelas com fitas de papel. Uma coisa simples e com resultado bem legal no final.

    Ao longo da produção fui contando uma história que envolvia o céu, o infinito, o tamanho das estrelas, e que aquele momento era nosso momento especial, afinal, estávamos produzindo o nosso céu particular. Fui estimulando-as a irem pensando no tamanho do seu céu e em quantas estrelas esse céu seria capaz de comportar.

    Fomos enriquecendo a experiência, tratando cada estrela produzida como algo único e simbólico, poderia ser um sonho, uma vontade, membros da família, sentimentos que mais apreciavam, comidas, brinquedos, enfim, tudo o que pode caber numa imaginação coletiva com crianças envolvidas na atividade.

    No final tínhamos quase uma galáxia na sala. Como as estrelas eram simples de se fazer, estimulei que sempre que quisessem transformar algo especial de sua via em um registro, que fizessem uma estrela e que, dessa forma, fossem ampliando seus céus particulares.

    Cada uma juntou suas estrelas produzidas num saquinho para levar para casa e ensinei de que forma elas poderiam colar essas estrelas no teto do quarto, caso quisessem, e caso os pais deixassem, claro.

    Até aí tudo tranquilo, tudo favorável. As semanas foram passando, as atividades sendo feitas, músicas, contação de histórias, pinturas, brincadeiras lúdicas, o que você puder imaginar. Eis que um dia, no fim do meu expediente, depois de tudo arrumado, bonito e cheiroso, uma mãe bate na porta. Ela estava com o filho, e o filho estava com um saquinho cheio de estrelas.

    A mãe pediu para falar comigo e o menino segurava o saquinho com toda força. Eu pensei: "meodeos, o que será que eu fiz?".

    Sentamos os 3 na mesinha no centro da sala. O garoto estava um pouco encolhido, olhando para o chão. A mãe me contou que adorava ver a participação do filho nas atividades da brinquedoteca, que sempre estimulava as produções e as criações do filho, seja com desenho, pintura, confecção de fantoches e afins, mas o origami...O TAL DO O-R-I-G-A-M-I....

    O problema ali não era o origami em si, mas o que o origami havia se tornado na vida dessa mãe. Ela me narrou que o teto do quarto dele já estava infestado de estrelas - ela e o marido ajudaram nas colagens, junto com ele - e que agora o quarto possuía estrelas por todo lado, no chão, guarda-roupa, mesa, janela e que a coisa já estava começado a dominar outros cômodos da casa e que ela estava ficando louca. Ela disse que tentou conversar, mas que, por nada nesse mundo, ele deixava ela limpar ou tirar. Cada vez que ela tentava, mais estrelas ele fazia e, pois bem, o céu estava, literalmente, desabando. 

    Então, ela encerrou dizendo: "Eu vim aqui para, por favor, você dizer para o meu filho que ele precisa parar com isso, pois já chegamos no limite lá em casa". Foi quando ele abriu a boca pela primeira vez: "eu não quero perder meu céu particular, tio".

    Nessa hora ele agarrou o saquinho perto do peito, e ficamos em silêncio. Ali estávamos nós: o garoto, tentando agarrar até o último suspiro suas estrelas e seu céu particular; a mãe, tentando até a última gota lutar pela volta da normalidade em casa; e eu, no meio de um impasse medonho entre reforçar um céu estrelado, ou deixar que o tempo nublado, sem estrelas, chegasse no quarto do menino. Estávamos, os 3, perdidos no espaço.

    Foi quando, do nada, como uma estrela cadente, lembrei de algo que a Clarice Lispector, certa vez, escreveu: "o que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós".

    Resolvi brincar com o impossível.

    Olhei para o garoto e disse: "mas rapaz, você não revelou para sua mãe o segredo supremo dos criadores de céus particulares?" Ele me olhou estranho, a mãe me olhou mais estranho ainda. "Que segredo supremo dos criadores de céus particulares, tio?". A mãe colocou a mão na testa, aflita.

    Pedi para os dois esperarem, pois era incabível que eu não tivesse falado sobre o segredo supremo dos criadores de céus particulares. Caminhei até o armário, peguei cartolina, tesoura, gliter, barbante, cola colorida e levei tudo para mesa e disse: "precisamos, urgente, produzir os seus capacetes". O garoto perguntou: "como assim, tio?" e a mãe perguntou: "oi?".

    Expliquei que toda estrela criada necessitava de um lugar especial, mas que para isso era de extrema importância que fossem colhidas, com todo cuidado do mundo, igual frutos quando estão maduros, nada de vassouras, mas que isso só poderia ser feito se utilizassem o capacete dos guardiões, produzidos à mão.

    Nessa hora eu pisquei para mãe, como quem diz: "pelamordideus, confia em mim e entra nessa onda!" Para meu alívio ela sorriu e disse: "Ah, então era justamente isso que faltava! Como você não me contou sobre o segredo supremo dos criadores de céus particulares, meu filho? Tem um monte de estrelas para colhermos lá em casa e guardarmos com carinho".

    Você não faz ideia da cara que esse muleque fez. Um sorriso se abriu leve acendendo seus olhos.

    Passamos alguns minutos ali, produzindo o capacete dos guardiões do segredo supremo. O garoto ergueu o saquinho que havia levado e disse que já sabia, exatamente, onde seria o lugar para depositar as estrelas do seu céu maior de grande.

    Para minha grata surpresa, os dois já queriam sair da brinquedoteca usando as máscaras que produziram, e assim o fizeram. Andavam pelos corredores como se fossem astronautas e eu só pedi, brincando, para fingirem que não me conheciam.

    Naquele dia haveria um universo para ser explorado entre uma mãe e seu garoto.

    Nossos grandes impasses, em nossas comunicações e diálogos, é que perdemos mais tempo preocupados com quem está certo sobre o quê, do que em investirmos tempo compreendendo o universo e a linguagem do outro, sem a necessidade de tomarmos partido de maneira inflexível.

    Difícil? Sim. Mas sempre carregaremos a chance, de em algum momento de nossa história, colhermos estrelas do chão das pessoas da nossa vida como uma possibilidade de integramos o outro em nós, sem apagarmos o que somos.