Potencializadores do Passado!

Potencializadores do Passado!

    Lembro de um final de semana em que fui a São Roque. Estavam em minha caixinha de leite (vulgo fiat uno) eu, uma amiga da época da graduação e um ex professor, um dos poucos que tive que instigava o pensamento para além do convencional e nos provocava a sermos criadores de nós mesmos e não meras cópias ou repetições de conteúdos.

 

    Durante a viagem de uma hora nós três conversávamos, calorosamente, sobre nossas vidas, os desdobramentos de nossas escolhas até ali e coisas do gênero. Meu professor narrava sua trajetória, a escolha pela Psico, falou sobre a época da ditadura, sobre alunos e professores que desapareceram, sobre as ameaças que recebia dos agentes do governo, sobre ter que ir morar em Londres para não acabar como seus amigos e mestres. Falou sobre Woodstock, sobre a época Hippie, sobre revoluções e as grandes maluquices que fez nessa época. Hoje, bem mais velho, continua tão vivo quanto na época da juventude, claro, agora com dores em partes do corpo que nem sabia que existiam. Ele diz que envelhecer nunca foi o problema, o problema é doer quando se fica velho.

 

    E foi dessa conversa que, em meio as risadas, ele concluíu dizendo: pois é, meus caros, meu passado me condena, mas dele eu não tiraria absolutamente nada!

 

    Foi o suficiente para passarmos o restante da viagem pensando em como batemos em nossa história de vida, em como anularíamos boa parte de nosso caminho, em como elegemos acontecimentos para dar chá de sumiço. E o passado vira esse monstro-fantasma que urra em nossas mentes. Mas péra, calma, quem nos ensinou a lidar com ele assim? Um passado que condena, um passado que determina toda nossa vida para o mal, um passado que oprime, um passado que nos faz querer ter tido outra vida?

 

    Enquanto olhava o horizonte e carros passando por nós, me vi recordando as partes da minha vida que me faziam fechar os olhos e tapar os ouvidos, a partes do meu caminho que cravavam silêncio em minha garganta, as épocas da minha história em que tudo o que eu tinha era um caderno e uma caneta para sangrar. Enquanto dividia isso no carro o professor me olhava e dizia: Negar essas coisas é negar também o que você se tornou.

 

    Estávamos a 80km na Raposo e eu estava a uns cento e duzentos km por segundo com meus pensamentos.

 

    Ele então nos contou sobre o processo das ostras como produtora de pérolas. Sabe pérola? Sim? Não? Vai saber melhor agora.

 

    Pois bem, ostra faz pérolas, mas não é toda ostra que faz, só a ostra que sofre. (Meodeos, sofrimento até nas ostras, óh ceus, óh vida, óh elementos marinhos)

Mas vamos ver esse sofrimento ostriano para entendermos melhor isso.

 

    A ostra sofre porque para ela produzir a pérola tem de ter um grão de areia, tem de ter alguma coisa que a irrite e faça surgir essa necessidade interna de produzir algo diferente nela mesma para deixar de sofrer, para que aquele ponto agudo, cortante seja envolvido por um elemento mais liso. E é nesse processo que a pérola vem a existência.

 

    Eu não preciso fingir que meu passado foi a melhor coisa da vida, para fazê-lo ficar mais apresentável. Fazer isso também seria negá-lo só que de outra forma.

Ter um passado que absolve é ter os olhos no que houve e dizer VOCÊ TAMBÉM SOU EU!

Ter um passado que absolve é se ver pérola e saber que isso só foi possível porque também se viu grão de areia e ponto agudo cortante!

Ter um passado que absolve é não precisar negar a vida que tem por outra que não viveu e nem existiu.

Ter um passado que absolve não me faz precisar abandonar o caderno, a caneta e o sangue, pelo contrário, me deixa ver a vida que escorre enquanto escrevo e enquanto vivo, a vida que existe, que é e que está.

Ter um passado que absolve me permite ser ornamento precioso de mim mesmo, pois fui fruto de um processo único e apenas meu.

Ter um passado que absolve me faz servir chá com biscoito (ou bolacha, não vamos brigar por conta disso rsrs) para o que me marcou.

Ter um passado que absolve me permite reconhecer os rasgos na minha alma e os usa para ampliar minha capacidade de ter mais mundo e mais vida em mim.

 

    Não nego a dor, a tristeza, o desespero, e nem o passado. E quando faço isso me permito afirmar o presente e ser o presente!

 

    Para o passado a ostra foi a vida e a pérola sou eu. Para o presente a ostra agora sou eu e a pérola será meu futuro, os dias depois de amanhã que contém todos os hoje que beijo com meus olhos mirando o horizonte.

 

    Como diria Leminski:

 

    HAJA HOJE PARA TANTO ONTEM!

    ISSO DE SER EXATAMENTE O QUE SE É AINDA VAI NOS LEVAR ALÉM!