Tente outra vez!

Tente outra vez!

    Essa semana conversei bastante com alguns clientes sobre nossas crenças e a força que elas operam em nós. E quando uso a palavra "crença" não estou falando sobre religião, mas sobre como nos posicionamos diante da nossa existência e de que forma o nosso jeito de acreditar nas coisas molda nosso caminho e nosso caminhar.

 

    Tem um barato muito louco em ser humano nessa vida e é sobre isso que quero discorrer hoje.

 

    Eu tive um peixe-beta de nome Netuno, e eu tenho uma gata de nome Pandora. Pandora é uma gata de rua que adotou um ser humano (eu). Se preocupa em se lavar cento e duzentas vezes por dia, checar se o pote de ração está devidamente cheio, escolher lugares exóticos para dormir (de preferência que tenha papelão), arranhar lugares proibidos, porque é legal ver humano irritado e também gosta de ser carinhosa como só ela pode ser. Netuno era um beta azul que prestava atenção no meu notebook quando me via assistindo filmes ou séries (e você achando que Netflix é só para seres bípedes). Ele detestava espelho, porque detestava pensar em dividir território. Gostava de encontrar jeitos e formas de se enfiar em lugares do aquário que não o cabia (e sempre conseguia) e adorava comer a ração ouvindo a trilha sonora do filme TUBARÃO. Ficava um climão máster de suspense, véi.

 

    Pandora é uma gata e sempre será uma gata e fará coisas de gata.

    Netuno era um peixe, sempre foi um peixe e só fez coisas de peixe.

    Não há como exigir/esperar deles algo além da sua própria natureza e condição enquanto animal irracional.

 

    Sim, eu sei, nenhuma novidade até aqui, isso é a coisa mais óbvia do mundo, porém há outro animal, delicadamente sublime, em tudo isso: Eu/Nós - Seres humanos.

 

    Não estamos fadados a sermos um protocolo estático e imutável durante nossa vida.

    Nós, enquanto seres humanos, carregamos sempre a possibilidade da escolha e a alternativa de mudança de percurso, de encontrar e/ou criar algo de nós diferente do algo que somos, somar os dois e nos percebermos novos outra vez, aptos a nos reconstruir continuamente.

 

    Kafka, um dia escreveu algo fantástico: Mesmo no caso da esperança ser muito pequena, não tenho o direito de não usar todas as minhas possibilidades!

 

    Enquanto a vida acontece, e a vida acontece em nós, temos a oportunidade de dar vazão a outros jeitos e formas desse nosso existir. Acontece que, por vezes, habitamos o lugar estático, do não-movimento, olhando a situação da perspectiva da neutralidade onde a ação tende a não aparecer. Escrevi um texto em 2012, época onde eu ocupava esse lugar com muita frequência. Vou dividí-lo com você:

 

Existe um barulho insuportável em alguns silêncios.       
Existe uma perna inquieta quando se precisa ficar parado, esperando.      
Existe uma ansiedade, quase incontrolável, que impede o instante.
Existe uma pressa sufocante que impossibilita a vista de onde se percorre.
Existem preocupações que nos ensurdecem.      
Existe "isso" que não sabemos nomear, e "aquilo", que é melhor não mexer.         
Existe uma linha do tempo onde, às vezes, não sabemos nos equilibrar.   
Existe uma dificuldade em aceitar que essas coisas existem.        

Existe uma felicidade simples que acende os olhos.        
Existem gestos que nos roubam as palavras.      
Existem pessoas que fazem valer o dia. 
Existe uma esperança que não se cansa de esperar.       
Existe uma força que nos impulsiona pra frente, mesmo que não enxerguemos o que há na frente. 
Existe uma vontade latente de viver as 4 estações sem precisar negar nenhuma delas.      
Existe um latejo constante pelas coisas que nos dão sentido.       
E também existe uma dificuldade em aceitar que essas coisas existem.



    Olhando para trás, e relendo esse texto, consigo até me imaginar brindando com Kafka, num barzinho com música ao vivo, onde conversaríamos sobre o uso de nossas possibilidades para dar vazão as pequenas esperanças ainda sentidas dentro de si, e do que elas seriam capazes de realizar.

 

    Nossas esperanças e crenças dizem muito sobre a forma como conduzimos nossa vida. Como diria Henry Ford: Quer você acredite que pode, quer credite que não pode, você estará absolutamente certo.



    E você tem acreditado no que? Como anda o tamanho de suas esperanças? E como anda o teu direito de usar todas as tuas possibilidades? Talvez hoje, agora, seja o momento de você pensar em como você tem condicionado e modelado teu jeito de existir a partir de como você tem conduzido tua fé na vida e na tua jornada. Observe que frutos você tem colhido com o tipo de crença que você tem plantado.

    *Só a caráter de curiosidade, eu escutava essa música enquanto escrevia esse texto: ouve isso aqui, mano!